Decorreu a 3 de Fevereiro o encontro que celebra 16 anos da comunidade IST spin-off. O Prof. Pedro Amaral começou por apresentar o novo impulso que o Técnico quer dar a esta comunidade, salientando a bidireccionalidade da relação: se o Técnico apoia o seu ecossistema de spin-offs, estas devem apoiar o Técnico. É um compromisso de mutualismo voluntário, cuja intensidade e exigência o Técnico se propõe reforçar.
Doravante, haverá abordagens diferenciadas para dois tipos de spin-offs: as “Made in Técnico”, nas quais investigadores, docente ou alunos querem levar até ao Mercado o fruto do seu trabalho científico e de engenharia e as “Técnico DNA” em que são empresas cujos fundadores alavancaram os conhecimentos adquiridos no Técnico para criarem uma empresa em qualquer ponto do mundo. Estas últimas, são a larga maioria dos actuais membros do ecossistema Técnico spin-off e a Albatroz Engenharia compraz-se de ter sido um membro fundador em Dezembro de 2009. Haverá novos logótipos e branding e reforço das ferramentas de apoio por parte do Técnico abrangendo seis pilares:
- Formação e desenvolvimento de pessoas, com descontos nas formações Técnico+ Training & Development
- Visibilidade & Networking com o respaldo da rede e da marca “Técnico Lisboa”
- Acesso a infra-estruturas laboratoriais do Técnico
- Mentoria e aceleração do negócio
- Propriedade intelectual e
- Financiamento.
De seguida, a mesa redonda abordou um tema íntimo de todos os empreendedores: o medo.
O moderador Ricardo Constantino (NTTDATA) estimulou uma troca animada e franca de ideias com Teresa Fiúza (Banco Português de Fomento), Daniel Riscado (Fidelidade) e Ana Teresa Freitas (Professora do Departamento de Engenharia Informática do Técnico) sobre o tema “Da Universidade à Start-Up: ultrapassando o medo do empreendedorismo”. Seria inviável reproduzir a conversa toda – espera-se que a organização divulgue o vídeo com as intervenções todas – mas, nas intervenções finais, uma pergunta provocatória do Prof. Pedro Amaral trouxe à superfície memórias enterradas da pré-história da Albatroz Engenharia.
O sentido da pergunta era “Será que os americanos têm mais sucesso nas start-ups porque se orgulham da vontade de enriquecer enquanto os europeus têm medo de assumir que querem ser ricos?” Este é uma das perguntas originais do empreendedorismo: o que move os empreendedores?
Os oradores responderam que o desejo de enriquecer e a relação com a reputação pública de ser rico varia com as idades e se esse sentimento é comum nas pessoas acima de 40 anos, a assumpção desinibida da ambição de riqueza aumenta à medida que a idade diminui.
A pré-história da Albatroz Engenharia
A Albatroz Engenharia começou a ser pensada em Setembro de 2003, no curso Vector E do Intituto IN+ associado ao Departamento de Engenharia Mecânica do Técnico. O objectivo do curso era capacitar os alunos para fazerem um business plan de uma nova empresa da área tecnológica que seria analisado no final por um júri internacional de profissionais de avaliação de propostas de investimento. O curso durava cerca de 10 semanas e custava várias centenas de euros, talvez ultrapassasse mil euros. O pagamento inicial de, pelo menos, 50% era feito obrigatoriamente por cheque ao Técnico.
O coordenador, Burkhard Schrage, um alemão que falava um Português do Brasil fluente e de vocabulário rico perguntou nas primeiras sessões do curso:
– Quem veio aqui para enriquecer?
As pessoas na audiência entreolharam-se e foram raros os braços que se levantaram.
– Quem quer ser rico, é melhor procurar noutro sítio, mais de 90% das novas empresas falham antes de cobrirem o investimento inicial. Se fizerem as contas, há melhores maneiras de enriquecer.
Foi um duche frio de realidade. Depois de nos deixar uns segundos de reflexão, ele acrescentou num tom mais afável:
– Nós só descontamos os cheques no final do mês. Por isso, têm mais uma ou duas semanas para pensar no que estão aqui a fazer e, se acharem melhor, passem pela secretaria a buscar o cheque. Ao menos, recuperam o vosso investimento.
No final do curso, Joao Gomes-Mota, um dos dois fundadores da Albatroz Engenharia, juntamente com um colega do Vector E submeteram o seu business plan numa área que já envolvia LiDAR. A ideia foi uma das duas vencedoras ex-aequo do programa e, felizmente, não avançou.
Felizmente? Sim, porque uma das lições aprendidas no curso é que a melhor validação é a que vem do cliente e os orientadores do curso – com o Burkhard Schrage à cabeça – insistiam “só me interessam contactos primários (=clientes directos), tudo o resto é conversa para embalar bebés. Quantos contactos primários fizeste na última semana?”
Durante a elaboração do projecto os dois candidatos a empreendedores estavam cada vez mais entusiasmados ao ponto de irem ao Registo Nacional de Pessoas Colectivas registar “Albatroz Engenharia, Lda”. Porém, à medida que os contactos primários, sempre raros e difíceis, se sucediam, o choque de realidade crescia.
Na avaliação final pública do projecto, com o júri e todos os grupos a assistir, os promotores relataram que tinham medo que a tracção do mercado fosse escassa, o que levou uma das avaliadoras do júri a perguntar, depois de felicitar a equipa pela vitória:
– Tudo ponderado, vão avançar?
A resposta deles foi negativa porque a rentabilidade prevista ficava nos “higher one digit” (entre 5% e 9%) e haveria sempre custos que eles estariam a esquecer. Ela respondeu:
– Fazem bem. No meu país, a Suíça, um negócio desse tipo precisaria de 20% a 30% de margem prevista no business plan para aterrar nos “lower two digits” na realidade. Se vocês já começam no “one digit”, provavelmente aterrarão em margens negativas.
E a Albatroz foi um “ovo” que foi chocado mas não chegou a eclodir.
Dois anos depois, um novo problema, um elemento da equipa substituído por Alberto Vale, PhD, colega do Técnico, uma nova solução com recurso ao LiDAR e uma sensação diferente: só havia um “contacto primário”, a LABELEC, empresa do grupo EDP, mas os interlocutores tinham tantas ganasde usar o produto como os dois promotores tinham de o fazer.
A seguir, vinha um novo problema: o primeiro cliente só compraria uma unidade e com isso atingiria uma quota de 100% de mercado nacional. Todas as unidades a partir da segunda teriam de ser vendidas fora de Portugal!
Voltou o medo: já havia filhos e famílias para alimentar e formar. Apesar de todos os medos, a confiança dos fundadores de serem capazes de criar o produto que respondia às necessidades do primeiro cliente levou-os a avançar. Dessa vez o ovo eclodiu e nasceu um pequeno albatroz em Fevereiro de há 20 anos atrás.
Houve ainda mais medo quando tomaram um decisão assustadora: conscientes de que não eram suficientes para entregarem o produto esperado no prazo exigido, contrataram mais quatro colegas engenheiros (sim, faltou complementaridade, mas eram engenheiros de disciplinas diferentes). Já não era um bote com uma pessoa em cada remo mas sim um barco com seis tripulantes que não se conheciam previamente e tinham 10 a 11 meses para porem o produto nas mãos do cliente ou, em alternativa, irem ao fundo 6 a 7 meses depois.
Em Junho de 2006 nasceu o conceito “Power Line Maintenance Inspection”, em 31/01/ 2007 foi feita a primeira demonstração de operação em tempo real e em 15/06/2007 foi entregue em Chaves a primeira unidade ao cliente para validação.
Onde é que o Técnico participa?
Três meses depois de criarem a Albatroz, os dois fundadores bateram à porta do Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores para assinarem o primeiro protocolo de colaboração com Universidades, que está em vigor até hoje. Não o fizeram por tédio ou por falta de trabalho, fizeram-no conscientes que estarem ligados a quem faz avançar o estado da arte é condição necessária para renovarem o produto e assegurarem a segunda venda e as seguintes.
A Albatroz Engenharia foi construída como uma ponte entre a universidade (o saber fazer) e o mercado (o querer usar).
Ao abrigo da relação com o Técnico organizaram-se estágios de Verão do Técnico e da IAESTE, projectos de dissertação de Mestrado, foram fornecidos conjuntos de dados para problemas de laboratório, houve participações em Semanas Académicas de vários cursos, em cursos do BEST, em IST Bootcamps, hackathons e aulas de Introdução à Engª Electrotécnica e de Computadores conduzidas por membros da Albatroz, participação em aulas de airworthiness, visitas à empresa, etc..
Em 2009, o convite do IST para a Albatroz ser membro fundador da rede ist spin-off surgiu naturalmente e a resposta foi naturalmente positiva.
O flashback de 2003 a 2009 e depois em fast-forward até 2026 durou o tempo da mesa dar lugar a Carlos Moedas, engenheiro civil formado no Técnico, ex-Comissário Europeu da Inovação e, de momento, presidente da Câmara Municipal de Lisboa.
Numa alocução breve, deixou três mensagens aos participantes (espera-se que também esteja em vídeo) das quais se destacam as duas últimas: a inovação disruptiva não depende de uma pessoa que sabe tudo sobre todos os temas, depende de equipas multidisciplinares em que cada um é muito bom no seu domínio, sabe ir ao encontro do outro e tirar o melhor partido do muito que ele sabe no domínio dele. Só este tipo de inovação criará empregos cada vez melhores e mais apelativos.
A terceira mensagem foi sobre o medo. Citando os seus professores, Carlos Moedas disse que o antídoto para o medo é a auto-confiança, não uma confiança cega mas aquela que define o sweet-spot situado no caminho que vai da ignorância à arrogância.
A auto-confiança é o sweet-spot do caminho entre a ignorância e a arrogância.
Conclusões
O que leva a Albatroz deste encontro e, já agora, de 15 anos de comunidade spin-off?
- Que a vontade de fazer tem de sobrepôr-se à vontade de dizer que se faz. Quando algo se torna real, o papel formal aparece. Quando se começa pelo papel formal, pode nunca se chegar ao real.
- Que todos os temas estão ligados. O saber é um só grafo conectado e a associação entre temas distantes lança desafios em cadeia a comunidades receptivas; esta é a melhor forma de estimular a criatividade. O software que a Albatroz usa nos helicópteros para inspeccionar linhas eléctricas é o mesmo que usa para fazer o modelo tridimensional das galerias romanas de Lisboa.
- Que a equipa é mais importante do que o produto. Uma boa equipa muda o produto ou muda de vida se o produto fôr inviável. Uma má equipa destroi o melhor produto.
- É a confiança que só eles são capazes de resolver um problema que leva os empreendedores a lançarem-se numa empresa. A Albatroz Engenharia existe porque a) os fundadores acreditaram que só eles eram capazes de fazer o sistema “Power Line Maintenance Inspection” e b) o primeiro cliente acreditou que só eles eram capazes de lhe resolver o problema por meio do sistema “Power Line Maintenance Inspection”. Se um dia os empreendedores ficarem ricos, será um spin-off.
Em resumo, além de um sumário de dicas para candidatos a empreendedores que não encontram tempo para ler mais do que 555 letras (onde também se fala de medo), fica a certeza que o emparelhamento entre a confiança na capacidade de fazer e a necessidade de usar, entre querer fazer e querer usar, são a génese do empreendedorismo. Ou, segundo Alexandre Herculano também citado por Carlos Moedas:
“Querer é quase sempre poder; o que é excessivamente raro é o querer.” Alexandre Herculano




